A Casa de Meu Pai

A Casa de Meu Pai

A febre que eu recebia não tinha motivo. Era um suador que poderia ter tanto com o calor insano dessa Curitiba tropical-bacanal como com a ressaca moral de uma noite regada a jägermeister, risadas, carros roubados e finalizadas no balcão de um bar, entre uma coca e uma dor de estômago.
Era um calor que se abrigava no meu corpo cansado, um espaço vazio que não dorme há dias, que não se acostuma em ser hóspede na casa em que cresceu. Período de Natal, e a minha casa – que mesmo assim não a reconheço como minha quando pago o aluguel todo o início de mês – fica vazia enquanto retorno ao ninho, um ninho esvaziado onde raramente encontro minhas memórias. E fico aqui, perdido num quarto onde nunca dormi, com outros móveis, outras fotos, toda uma estranheza complementada por pensamentos desastrosos. Poucas coisas como antes. Ainda tem umas garrafas de bebidas, uma ou outra caneca, um quadro reformado. Um sofá reformado. Mas não está lá o beliche que dividi com meu irmão por anos. Nem as janelas barulhentas de ferro! Onde foi parar a casa que me abrigou? Por horas penso que ela foi invadida e pilhada, e nada mais nela tem com o que fora. Em outro momento, acredito que houve uma evolução para se encontrar a felicidade – e que com isso nada tenho a ver, afinal, cada um no seu quadro. Só lembro que entre devaneios segue meu corpo a ser consumido por esse calor.
Mas acredito que meus pensamentos estão um tanto impuros, e por isso essa febre.
– Queima! Queima! – berra o corpo por dentro, jogando contra minhas ideias, que buscam palavras para compor o dia em que trancarei a porta da frente com uma chave diferente da que hoje está.
I’m tired my head is pulsing like a bomb