Boemia…

Boemia…

– Eu precisava tomar o primeiro gole para tomar coragem.
Assim começou o depoimento de Andréa. Há 6 anos que eu era seu analista, e nunca consegui encontrar o limiar que não me permitia o enquadrar como alcoólatra nem determinar suas dificuldades de relacionamento. Homens e mulheres passaram por sua vida sem que criassem raízes. Só deixavam marcas. Jim Beam foi a sua preferida.
Sempre deixei em meu consultório uma garrafa de uísque no armário e um espumante no frigobar. Comemorações ou relaxamentos, tanto faz: o álcool sempre me facilitava a vida. Mais que a porção de chocolate ou a fatia de bolo dois amores após o almoço, acompanhado com um café com leite – mais leite que café, por favor.
Acredito que entre eu e Andreas havia uma cumplicidade particular. Por mais que fosse responsável por analisá-lo, um cartomante com curso superior, como bem me conceitua a desciclopédia, usualmente acabávamos por trocar uns goles ao final de cada sessão.
Neste dia, em especial, após assumir que havia colocado um belo par de chifres em quem chamava de amor de sua vida, Andreas chegou em meu consultório murmurando, questionando os ensinamentos de Vinicius de Moraes:
– O velhote casou com quantas? Cinco? Seis?
– Nove – respondi. Tati, Regina, Lila Bôscoli, Malu Proença, Neli….
– Nelita, Cristina Gurjão, Martita, Gilda e mais uma que eu não lembro se era Gesse ou Gessy – ele emendou, criticando – Sou tão viciado nele quanto você. Nele em nos cachorros que ele ensinou a soltar da garrafa.
– Era Gesse Gessy, assim, estranho e juntos, o nome dela. E ele se casou com ela na umbanda, antes de casar com Martita, depois da Gurjão.
– Que se dane.
E ali começou a contar da separação. Em 6 anos, era a quarta ou quinta que eu acompanhava. Normalmente cada relação começava como Nelson Gonçalves “Boemia… aqui me tens de regresso…” E terminava assim, meio paródia, meio realidade. “Boemia… aqui me tens de ressaca…”.
Gesse Gessy X Vinicius de Moraes