Zombie Walk

Zombie Walk

 

Passos tortos. Manchas pelo corpo. Uma mistura de sujeira com desleixo. Essa era a postura matinal de Leonardo neste domingo. Fora parecido já na quinta, na terça, e quase em toda a sua vida. Pelas ruas do centro da cidade, homens e mulheres com sangue escorrendo pelos corpos, cheiro de maquiagem, andar arrastado. Pessoas que aparentavam sair de filmes de terror compunham o ambiente cinzento onde a ficção se cruzou com a realidade sem dar qualquer atenção, confundindo-se como um dos seus contos fantásticos.
Aquele ser humano semimorto junto com outros tantos assemelhados. Os rostos em sangue, os olhares sombrios, os dentes estragados pelo tempo em que viveram mortos. A pele carcomida por pragas ou por desgraças da vida ou pelas pinceladas dos maquiadores. No lado oposto da rua, Leonardo tentava acompanhar com o olhar embaralhado a multidão que se aproximava, tomando conta da via centra. Observava o ir e vir sem entender e sem buscar qualquer ideia sobre o que acontecia.
Era um corre corre desgraçado naquela manhã. Uma corrida manca e forçada para quase todos eles. Crianças se assustando com as cenas que viam. Crianças participando de um movimento que desconheciam. Adultos sendo crianças em cenas de filmes trash espalhadas pelas ruas. Crianças e adultos se confundindo com o cenário de um centro decadente, precário, envolto a prédios descuidados e sujeiras. Uma zombie walk num lugar habitado por tantos outros zumbis invisíveis como Leonardo. Mortos vivos de verdade, que apenas sub existiam naquele lugar onde tantos festejavam a morte.
Porque seu dia-a-dia era o que aqueles seres faziam uma vez por ano: andar sem direção, com os pés carcomidos por inflamações, o corpo infeccionado, a sujeira encrustada na sua pele. Enquanto uns inventavam um andar de zumbi, Leonardo era há anos um zumbi em si mesmo.