Aquarelas

Aquarelas

Liguei pro Antônio no sábado pra saber como andava a vida. O cara me respondeu que estava tudo certo, mas eu senti um ar estranho naquele jeito de falar. Estava seco, ausente, uma resposta meio padronizada, sabe?
Ele era do tipo de pessoa que todos sabiam da vida. Estava sempre online falando de tudo no twitter, amando loucamente no facebook, dizendo cada passo no foursquare. Era viciado em tecnologia a ponto de diariamente criar um novo álbum no Flickr com seus passos. Era um com o seu rosto, outro com o tipo de roupa que estava usando, um terceiro com os tênis, mais um com imagens da rua, outros com pichações – ou arte urbana, como ele dizia –, e assim seguia. Mas havia uns 10 dias que estava ausente, e as poucas coisas que falava sempre tinham uma cara de Lord Byron.
Resolvi olhar seu facebook e daí eu entendi o que estava rolando: de namorando, agora constava como viúvo seu status de relacionamento. Óbvio que tinha rolado um entrevero com a patroa e por isso a coisa não andava bem. Liguei de novo e falei que tinha comprado umas cervejas novas e queria saber se ele topava experimentar. Tinha comprado uma Stout, duas Indian Ale e outras Porters. Ele hesitou e eu avisei que estava levando na casa dele.
Cheguei lá com as cervejas e uma peça de picanha pra fatiar enquanto bebíamos. Apertei a campainha e vi um Antônio todo largado, calça de moletom e camiseta, maior cara de pijama na cara. Dei um beijo e um abraço meio de lado por causas da sacola e entrei.  Alguns amigos queridos eu sempre beijo como se fossem meus irmãos. Entrei e fui direto pra cozinha deixar a carne e colocar a cerveja pra gelar.
Antônio fechou a porta e veio atrás de mim. Perguntou se preferia que acendesse a churrasqueira ou se rolava fazer a carne na chapa mesmo, e optamos pela segunda opção. Menos trabalho e mais rápido. Olhei pra ele e fui direto ao assunto: – Tá, me conta agora o que está acontecendo que a tua cara está péssima, filhote. E então Antônio desabou a falar…
– Cara, tomei um pé da mulher esses dias. Falou que não estava rolando mais, que tinha sido legal mas que era melhor cada um seguir seu caminho.
– Aquele papo de sempre – falei.
– É, você sabe como funciona, não é?
– E como.
Começamos a rir e dei um abraço nele.
– Antônio – comecei.  Antônio, não fique tão apegado. Vocês estavam juntos a o que? Três? Quatro meses? Ainda é tempo de se conhecer e saber se é a pessoa certa…
– Mas você me conhece. Eu sempre acho que é a pessoa certa. E eu sempre me jogo de cabeça em qualquer relação, se estou namorando, se estou ficando com a pessoa, sempre me jogo de cabeça.  Agora é seguir em frente.
– Cara, mulher é como aquela música do Toquinho, sabe? “sem pedir licença muda a nossa vida e depois convida a rir ou chorar”. Agora vai de você seguir em frente ou se trancar.
– Tá, vamos ver aquelas cervejas da geladeira – disse Antônio. 

2 Replies to “Aquarelas”

  1. Tbm terminei um relacionamento esses dias e queria um consolador como você! Hahhahahahaha….!!! Essas coisas, a gente teima e sempre acontece né… e não tem essa de homem ou de mulher… cada caso é um caso!!

  2. cara gostei muito do texto, simples,mas tocando, tenho um blog pessoal e vou colocá-lo nele, farei a referência, para que todos que o lerem saibam onde buscar mais dessas pequenas coisas.
    Obg
    (amei a citação de toquinho no final)