Enganações

Enganações

Sexta-feira chegou bem safada. O sol resolveu não sair e deixou o dia com aquela cara de manhã recém acordada. Manhã manhosa, meio chovia, meio queria aparecer um mormaço. Meio litoral, sabe como é?
Acordei era perto de meio dia. Quando eu digo perto, não pensem que era onze e pouco. Se duvidar já passava da uma. Mas me acostumei a falar “perto de meio dia” que era como eu contava pros meus pais na primeira vez que sai de casa. Acordava lá por uma e tanto, às vezes duas e tanto, e sempre falava – Ah, pai… era perto de meio dia. Demorei para desligar meu umbigo de casa, e sempre me fiz de rapaz obediente. Foi assim em casa, na escola, nos namoros. Bom moço. Sabe como é, não?
Mas ali no começo do dia, no começo da tarde no caso, o sol estava minguado e por três horas resolveu que era bom dizer que estava vivo. Abriu um azul lindo no céu, o sol já de lado, mas com aquele clima de manhã, tanto pra mim como pra ele. Três da tarde e putiei por não ter ido à praia como havia me programado e conhecia aquele tipo de sol: vinha tarde e corria como um coelho. Menos de meia hora depois já estava tentando se esconder, nuvens já ofuscavam a sua cara e eu me escondia em um casaco de lã.
Às 4 caiu o sol. Meio que despencando o frio da noite, uma neblina bonita, e aquele ar de quem não perdeu muito em ir pra praia. Peguei meu livro, deitei no sofá e deixei ele cair em cima do peito, com a página aberta em qualquer lugar que eu ainda não tinha lido. Sempre me faço de bom moço e pseudo intelectual.