Esquecimentos

Esquecimentos

Abro a porta do carro com a mão esquerda, e, enquanto estou puxando a maçaneta, com a direita coloco a mão por dentro da jaqueta, como quem vai puxar uma pistola daquela cinta-liga que investigador de filme americano usa pendurada no ombro, sabe? Coloco a mão ali como quem vai sacar, e tiro minha carteira e os documentos do carro.
Ao sentar no banco do motorista, a mão direita, cheia de documentos, carteira, a chave do carro pendurado no mindinho, puxa a alça da porta pra fechá-la, mas fica meia bomba. Percebo isso pela luz acessa no meio do carro, como se a porta estivesse aberta. Ela não está aberta. Mas nem fechada também. Uma merda.
Largo os documentos e a carteira no console. A chave cai onde deveria ficar os pés do passageiro. Dou um solavanco com a mão esquerda na porta, sem abrir, e apaga a luz do teto. Quando me agacho pra pegar as chaves e enfim sair da garagem, fecho os olhos por um instante.
Pernas grossas. Saia curta. Sandália com salto que deixa aquela mulher mais alta que eu. Mas sem salto ela também ficaria mais alta, lembro. Aquele cabelo moreno, aquele olhar caído e com uma pinta chamando mais atenção que a maquiagem escura. Meia calça grossa, grosseira, alguns rasgos, algo de moda, talvez. Não entendo disso e nem tenho muita paciência pra tentar entender. Olho por entre aqueles fios pra entender aquelas coxas. Nem reparo no olhar, no desejo. Meu desejo está ali. Coxas.
Percebo que estou fora de mim e retorno daquele momento senil. Procuro em volta e não há ninguém. Imagens ou lembranças, apenas, mas tanto faz. Estou atrasado para chegar no trabalho e lembrei que deixei dentro de casa a chave do escritório. Abro a porta e largo o carro aberto na garagem. Volto pro carro. Preciso da chave de casa que está na ignição, junto com a chave do carro que está aberto na garagem. Coxas…

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